A cor de Museu Imperial

Ruth Judice

Nós que somos preservadores, amantes desta cidade, estudiosos de sua arquitetura, quando lemos que o Museu Imperial ia ser pintado de outra cor, paramos para pensar.

Analisando sob o ponto da Preservação como Ciência, tudo certo. Pesquisar o passado de um bem e fazê-lo retornar cem por cento, à sua origem, seria o lógico. Foi, certamente, o que levou o atual Diretor do Museu, profundo conhecedor do assunto, a pensar na mudança. Por outro lado, qual a situação atual do Palácio de D. Pedro II? Bem conservado, pintura em rosa intenso, cor adequada pois não “agride” (termo técnico) ao conjunto e ainda realça sua inspiração neoclássica, com os detalhes na cor branca.

Há quase meio século ele está no tom que o vemos e que já espalhamos em fotos coloridas, pelo mundo. Segundo Dom Pedro Carlos de Orléans e Bragança, membro da família imperial, “esta é sua cor, desde que virou Museu Imperial”. O povo sempre o viu assim e foi nesta cor que aprendeu a amá-lo.

Todos sabemos que o Museu foi a residência de verão do Imperador Pedro II. E muitos sabem que a família imperial ainda reside na cidade em diferentes endereços. Um deles é o Palácio do Grão Pará que abrigou o príncipe Dom Pedro Gastão até sua morte recente. Quem não se lembra dele, sempre montado no seu cavalo Tony, trotando pela Av. Ipiranga, ou seguindo o rio na R. da Imperatriz? Alguns entre nós certamente ouviram uma pessoa do povo cumprimentando-o: - Bom dia “seu” Príncipe – ao que ele retribuía sorrindo: - Bom dia! Pois foi ele que nos contou, numa das suas visitas, comentando quantas residências e sedes públicas usaram a mesma pintura do Museu. Dizia que isto lhe dava muita satisfação, porque fora ele que criara a cor com um fabricante de tintas. O fabricante, em atenção a Dom Pedro batizara a cor de – Rosa Grão Pará.

Usemos o bom senso. Este é um fato que tem que ser levado a sério. Dom Pedro era a própria tradição viva, circulando entre nós. Tivera o bom gosto de ir ao fabricante, “criar” uma cor e perpetuá-la como uma característica quase que exclusiva da cidade! Não podemos, de repente, trocá-la sem pelo menos ouvir a população. E essa já se pôs na defensiva, já foi para os jornais, já discutiu nos bares da cidade e a maioria apela: não, essa cor não pode ser trocada.

Hoje estou vendo na Tribuna de Petrópolis, os preservacionistas da cidade, mesmo distantes uns dos outros, começaram uma unanimidade. Não querem perder esta “criação” nossa. Estamos entre eles. Neste caso específico, sobre a preservação de um prédio que está entre as primeiras no Livro do Tombo, a nosso ver, tem é que receber também tombada a cor inventada por Dom Pedro Gastão e que já tem pelo menos meio século. É preciso lembrar que foi escolha de um neto da Princesa Isabel. Tenho certeza que ela aplaudiria a cor que fez o Palácio Imperial se distinguir das outras construções da cidade.

A Ciência da Preservação deve ser ouvida, não discutimos isto. Mas cada caso é um caso. Imaginem que alguma autoridade tivesse impedido que se construísse a torre da Catedral de São Pedro de Alcântara que restou inacabada desde 1929 até 1960. Havia a possibilidade de que ela não suportasse o peso de sua torre devido às condições do terreno. A técnica moderna solucionou o problema através de uma torre metálica, feita de um metal mais leve. Se esta intervenção tivesse acontecido teria havido o mesmo impasse entre a autoridade e a população. Pelas regras da Ciência da Preservação, teria ficado como estava, um problema não resolvido. Mas como o assunto não foi questionado, lá está ela embelezando a nossa Catedral neogótica que, hoje completa, ficou mais parecida com uma catedral da Idade Média, especificamente com a catedral de Ulm, às margens do Rio Danúbio, na Alemanha, que também só tem uma torre.

Cabe-nos apelar para o Diretor do Museu Imperial e para o IPHAN; que ouçam o apelo da população e que deixem viva a solução dada por Dom Pedro Gastão que conseguiu encantar grande parte de nossos moradores, que saíram copiando o Rosa Grão Pará que ele criou com seu bom gosto.