Os Anjos de Inhomirim

OS ANJOS DE INHOMIRIM
Paulo Roberto Martins de Oliveira
Este breve relato histórico, que ora apresento, inicia-se a partir de 13 de junho de 1845, quando desembarcaram na Capital da Província do Rio de Janeiro, as primeiras levas dos colonos germânicos, com destino à Petrópolis.

Os primeiros colonos, embora com certas dificuldades, chegaram razoavelmente bem ao topo da Serra da Estrela, no dia 29 de junho. Porém, os que desembarcaram no Rio de Janeiro, a partir de meados do mês de julho, foram os que mais sofreram, pois muitas famílias tiveram perdas irreparáveis ao longo do percurso, até chegarem à povoação de Petrópolis.

O sofrimento que havia sido bem grande, durante a viagem marítima para o Brasil, intensificou-se a partir do momento do desembarque no porto do Rio de Janeiro, pois não havia boas instalações para acomodar tantas pessoas que, em várias embarcações, chegavam seguidamente uma das outras.

Após passarem pelo período de quarentena, nos depósitos superlotados e mal acomodados da Imperial Cidade de Niterói, as famílias dos colonos germânicos seguiam viagem para o Porto da Piedade, em Magé e deste local, em pequenas embarcações, subiam o Rio Inhomirim (aproximadamente 7,5 Km), até alcançarem o Porto denominado de Nossa Senhora da Estrela.

Muitas famílias ficaram temporariamente instaladas junto ao porto fluvial da Estrela e arredores, até que houve vagas para que pudessem acomodá-las mais adiante, ou seja, nas antigas instalações da Fábrica de Pólvora, na Raiz da Serra. Neste local, permaneciam até que pudessem seguir viagem e chegarem à tão sonhada Imperial Colônia de Petrópolis, embora esta também acumulasse inúmeros problemas de acomodações para receberem tantas famílias na recente povoação.

Durante o tempo de permanência das famílias nos abrigos improvisados, surgiram inúmeros problemas relacionados à alimentação, ao asseio e à saúde, o que gerava um grande mal-estar e descontentamentos por todos, principalmente no que fazia respeito às doenças, que reinavam na Baixada Fluminense, provocadas geralmente pelo intenso calor, como a febre do tifo e as diarréias. O atendimento médico era precário e faltavam medicamentos, ocasionando a perda de muitas vidas, sendo a maioria as das frágeis crianças.

Todos os corpos eram transportados para o único cemitério da região, que situava-se na Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim, no terreno da Igreja Matriz.

Devido ao grande número de falecimentos de crianças (algumas dezenas), o local de sepultamento, naquela época, ficou conhecido, como o "Cemitério dos Anjos".

A maioria dos óbitos relacionados às famílias germânicas ocorreu entre 21 de agosto e 21 de dezembro de 1845, nos abrigos da Fábrica de Pólvora. Foram 4 meses de angústia e sofrimento, tornando-se uma lembrança triste, muito triste de parte do início da história da nossa colonização.
Antes de demonstrar a listagem dos falecimentos, acontecidos entre as datas acima citadas, vale mencionar que as datas que constam no livro de assentamentos de óbitos são as dos dias dos sepultamentos. Presume-se então, que os óbitos tenham ocorridos nos dias anteriores.

Vale ressaltar que o trabalho de pesquisa (relacionado aos óbitos) pelo autor desta matéria, foi possível a partir da página 181 até à página 184, do livro n.º 22 - INHOMIRIM - ÓBITOS - LIVRES - 1817 à 1860, da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim (Igreja Matriz), pertencente ao arquivo histórico da Cúria Diocesana de Petrópolis, cujo termo de abertura neste livro está assinado pelo Padre Antônio de Oliveira.

Página 181, aos 21 de agosto, foi sepultada a inocente Regina, filha natural de Guilhermina WAGNER; aos 25 de agosto, foi sepultado o inocente João, filho de Balthasar BECKER; aos 27 de agosto, foi sepultada a alemã Elisabeth DORR; aos 30 de agosto, foi sepultado o alemão Peter, filho de Philipp WINDHAUSER; aos 02 de setembro, foi sepultada a inocente alemã Catharine de 18 meses de idade; aos 06 de setembro, foram sepultadas as colonas alemães: Margareth de 16 anos de idade e Magdalene de um mês e meio de idade, faleceram de moléstia de tifo.

Página 181 v (verso), aos 16 de setembro, foram sepultadas as inocentes alemães: Christine SATTLER e Catharine STEIL, faleceram de diarréia; aos 19 de setembro, foi sepultada a inocente alemã Catharine, filha de Johann Adam GRAEFF; aos 20 de setembro, foi sepultada a inocente Margarida, KRAUTKRAEMER, faleceu de diarréia; aos 21 de setembro, foi sepultado o inocente João MALLMANN, faleceu de uma febre de tifo; aos 23 de setembro, foi sepultada a inocente alemã Margarida, KRAEMER, faleceu de diarréia; aos 30 de setembro, foram sepultados os inocentes: Catharine STÜLPEN, de um ano e meio de idade, Bernard ELBERT, com 6 meses de idade e Anne Marie PITZER, com 3 anos de idade, que habitavam a Fábrica de Pólvora; aos 02 de outubro, foram sepultados os inocentes: Jacob KOETZER e Elisabeth RIEMANN, ambos com 2 anos de idade, residiam na Fábrica de Pólvora.

Página 182, aos 02 de outubro, foi sepultado o inocente Jacob, filho de Jacob EXEL; aos 09 de outubro, foi sepultado o inocente Henrique, filho de Henrique HAUBRICH; aos 12 de outubro, foi sepultada a adulta colona alemã Anne Marie HILL (Feuer), (era casada com o colono Philipp HILL); aos 13 de outubro, foram sepultados os inocentes: Pedro FABER e Maria WEIRICH, (na pasta não vinham os nomes dos pais).

Página 182 v (verso), aos 18 de outubro, foi sepultado um inocente, (na pasta não vinha o nome da criança), filho do alemão Jacob GEORG; aos 20 de outubro, foi sepultado o inocente Antônio, filho do alemão Anton BLATTEN; aos 20 de outubro, foi sepultado o inocente alemão SCHEID; aos 20 de outubro, foi sepultado o inocente Pedro WENDLING; aos 22 de outubro, foi sepultado o inocente alemão de nome Pedro José ANDREAS; aos 25 de outubro, foi sepultado um inocente, filho do colono alemão Jacob LUKAS.

Página 183, aos 30 de outubro, foi sepultada a adulta Marie Catharine, mulher do colono alemão Nicolau WIRSCH (ou WEIRICH); aos 03 de novembro, foi sepultado um inocente, filho do colono alemão Joseph GEOFFROI; aos 04 de novembro, foi sepultado o inocente Jacob KRAUTKRAEMER; aos 07 de novembro, foi sepultada a adulta Catharine, mulher do colono alemão Philipp REITZ; aos 12 de novembro, foi sepultado o inocente Philipp, filho do colono alemão Anton KNEIPP; aos 12 de novembro, foi sepultado o inocente Joseph SATTLER; aos 14 de novembro, foi sepultado o inocente Adão, filho de Adam BAUER; aos 20 de novembro, foi sepultado um inocente, filho do alemão Anton VOGEL.

Página 183 v (verso), aos 27 de novembro, foi sepultada a adulta Marie Catharine, mulher de Martin Michel, (colonos alemães); aos 11 de dezembro, foi sepultado o colono alemão Johann JUNG, remetido da Fábrica de Pólvora; aos 12 de dezembro, foi sepulta a inocente alemã Anne Marie SCHAEFFER, remetida da Fábrica de Pólvora.

Página 184, aos 21 de dezembro, foi sepultada uma adulta, mulher do alemão Karl SCHMITT, habitantes da Fábrica de Pólvora.

Há 5 itens, relacionados às descrições acima, que devo cita-los:

1º. Entre as datas de sepultamentos anteriormente citadas, houve as de mais 10 crianças, cujos nomes não constam nos assentamentos ou simplesmente estão ilegíveis.

2º. Existem 2 apelidos: STEIL e RIEMANN, que não eram de colonos, pois não constam da relação oficial dos que vieram colonizar Petrópolis.

3º. Quase sempre, para os sepultamentos, junto aos corpos ia uma pasta, que continha o nome do falecido e a causa da morte.

4º. Geralmente, os familiares não acompanhavam o transporte dos corpos. Isso quer dizer que não assistiam às solenidades dos enterros.

5º. No ano de 1935, houve um procedimento de limpeza, no antigo Cemitério da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim. As ossadas encontradas entre o entulho, das ruínas de um muro, foram recolhidas ao ossário, que localiza-se em um dos espaços que sobraram das ruínas da velha Matriz.

Espero que esta matéria, ora apresentada, sirva de fonte de consulta para quem precisar completar as lacunas nas árvores genealógicas de algumas famílias dos nossos colonizadores germânicos.
Nota:
Os dados bibliográficos foram apontados no decorrer da matéria. Porém, aqui ficam registrados dois agradecimentos:
1º. Ao Sr. Dom José Carlos de Lima Vaz, DD. Bispo de Petrópolis - RJ, por permitir que o autor deste trabalho pesquise no arquivo histórico da Cúria Diocesana de Petrópolis.
2º. À Sra. Vera Eliane Bauer Castor, pela gentileza de me emprestar as fotos do arquivo do seu pai, o saudoso historiador Gustavo Ernesto Bauer, para ilustrarem este trabalho.