Os primeiros Quarteirões de Petrópolis e algumas curiosidades.


(Da planta do Major Koeler de 1846)
Quarteirão Bingen: Este faz limite com o Quarteirão Ingelheim e mantem seu nome, mas
a referencia de Quarteirão, caiu em desuso. Até meados do século XX, a principal rua de
cada quarteirão, tinha o mesmo nome. Apenas alguns ainda se mantem e este é o caso
aqui. O Quarteirão Bingen começa na Rua Bingen, na altura conhecida como Curva do
Jóia. Deste quarteirão destacamos uma ilustre moradora: Trata-se da Sra. Clara Stumpf
Pitzer, bisneta do colono alemão Paul Stumpf e de Eleonora Charlotte Bauer. Ela é uma
historiadora nata que com mais de 90 anos de idade, passou a escrever relatos que narram
grande parte da história deste e de outros quarteirões. Dª Clara fala e escreve com
detalhes sobre suas lembranças. A família, a infância, a relação de pais e filhos, a
religiosidade, os casamentos, os funerais, as profissões e muitas histórias mais, tudo com
nomes e datas, abrilhantando seus relatos.
Quarteirão Castelânea: Nele está situada a casa “Museu do Colono”. Embora esta casa
tenha sido construída pelo imigrante militar (não colono) Johan Gotlieb Kaiser.
Quarteirão Ingelheim: De nome complicado para muitos, tem uma bela pronúncia
germânica. Foi o único quarteirão com nome germânico, que não caiu em desuso popular,
ou seja, continua sendo chamado de Quarteirão Ingelheim e sua rua principal continua
sendo Rua Ingelheim. Ali receberam prazos de terras, 42 colonos. Deste destacamos o
colono Nicolau Kapps casado com Catherine Gorgen com 6 filhos que chegou de Koblenz,
Prússia Ocidental - Alemanha e recebeu o prazo de terras nº 1027. Um de seus trinetos
Jorge Antônio de Sá Kapps tornou-se músico indo viver fora do Brasil. Seu nome artístico
é Jorge Kaiser. Outro descendente de Nicolau Kapps é o tetraneto Dr. Sergio Carvalho,
procurador de justiça que mantinha na Rádio Imperial o programa “Espaço do Cidadão”
como Presidente do Movimento Sociedade Viva.
Quarteirão Mosela: Este faz limites com os Quarteirões Nassau e Ingelheim. Seu nome é
uma alusão ao Rio Mosel na Alemanha.
Quarteirão Nassau: Este se limita numa das vias públicas com o Quarteirão Westfália na
confluência dos rios Piabanha e Quitandinha. Esta confluência recebeu o nome de Praça
Koblenz, numa alusão à cidade de Koblenz na Alemanha, onde há o encontro dos rios
Reno e Mosel.
Quarteirão Palatinato Inferior: Neste quarteirão o colono Georg Cristian Webler com sua
esposa e 8 filhos, recebeu o prazo de terras 2213, destacando-se pelo bom aproveitamento
de suas terras, progredindo na agricultura. Plantava aveia, centeio, batatas, hortaliças,
flores e árvores frutíferas, dentre as quais destacavam-se as macieiras e os pessegueiros.
Quarteirão Palatinato Superior: Este quarteirão foi um dos primeiros demarcados. Na
parte mais alta, localizada na zona sul de Petrópolis, predomina o Morro do Cobiçado,
ponto culminante do centro urbano de Petrópolis. Num belo manto verde, do alto de suas
matas, nascem dois pequenos riachos; o da Pedra Oca e o Bonito que mais abaixo se
juntam formando o antigo Córrego Seco, sendo este mais tarde, denominado de Rio
Palatino.
Quarteirão Renânia Central: Neste quarteirão destacamos o colono Karl Kober com sua
esposa e 1 filho, recebeu o prazo de terras nº 1806. Era hábil na produção de tábuas para
revestimentos externos de paredes e cobertura das casas. Prestou serviços na construção
das dependências do Imperial Palácio de Petrópolis. O nome “Renânia” caiu em desuso
após o término das linhas de bondes em 1939.
Quarteirão Renânia Inferior: Este Quarteirão começa na parte baixa da bacia do Rio
Quitandinha, na Rua Washington Luiz nº 85 e Rua Professor Pinto Ferreira nº 180 e vai
até pouco depois das Duas Pontes, na Rua Cel. Veiga aproximadamente n nº 29.
Receberam terras neste quarteirão, 17 colonos. Aqui queremos destacar dois deles:
Mathias Goettnauer que chegou a Petrópolis em setembro de 1845 com a esposa e tres
filhos, instalando-se no prazo de terras 1414 Em 30/11/1851, nasceu sua filha Maria Eva
Goettnauer que mais tarde veio a ser a primeira dentista de Petrópolis. Em 1930 o colono
Georg Gabrich que não era originário deste quarteirão, comprou aqui um terreno na Rua
Gonçalves Dias nº 34 e ali construiu uma casa onde foi morar com sua família. Em 1933,
porém, vendeu a casa. Mais tarde o novo dono vendeu-a novamente e desta vez ao ilustre
escritor austríaco Stefan Zweig que ali viveu até sua morte.
Quarteirão Siméria: O nome deste quarteirão faz referencia a Simmern na Alemanha,
localizada na parte central do Hunsrück. Ali, 20 colonos receberam seus prazos de terras.
Dentre eles, destacamos o agricultor Johann Adam Beuren e sua família. Este chegou a
Petrópolis entre outubro de 1845 e janeiro de 1846 com sua esposa Elisabeth Moritz e o
filho Joseph Beuren de dois anos. Eram naturais de Burgen – Mosel – Alemanha. Eles
receberam o prazo de terras nº 2003 com testada para o Caminho do Colono, hoje Rua
Olavo Bilac e mais tarde compraram o prazo de nº 240 na Vila Imperial, hoje centro de
Petrópolis. Aqui nasceram mais 3 filhos; os gêmeos Augusto e Carlota em 1848 e Martin
em 11/05/1852. No ano seguinte acontecia na capital Rio de Janeiro, a febre amarela. Em
Petrópolis também alguns colonos ficaram doentes e perderam seus entes queridos. Este
foi também o caso de Johann Adam Beuren que faleceu no dia 14/05/1853 aos 37 anos de
idade, deixando viúva sua esposa Elisabeth com 4 filhos, o mais velho, Joseph com 10 anos
e o mais novo Martin com 1 ano. Não suportando as dificuldades, ela, deixou Petrópolis
vendendo suas terras, levando consigo seus 4 filhos, acompanhada de mais 7 famílias para
a Colônia de São José dos Conventos, que deu origem às cidades de Lajeado e Estrela no
RS. No cemitério da cidade de Lajeado encontra-se a lápide de Elisabeth Moritz Beuren,
nascida em 18/08/1819 e falecida em 08/04/1907 aos 85 anos de idade.
Quarteirão Westfália: Dividido pelo principal rio de Petrópolis, o Piabanha, tinha à sua
margem esquerda o Caminho Colonial, mais tarde denominado de Rua Westfália. Anos
depois recebeu o nome de Estrada União e Indústria e mais recentemente a parte inicial
passou a chamar-se de Av. Barão do Rio Branco.
Vila Imperial: Era a principal Vila da planta de Koeler por tratar-se da área central da
Imperial Fazenda de Petrópolis e onde foi construído o Palácio de veraneio, hoje Museu
Imperial.
Vila Tereza: O nome surgiu em homenagem à Imperatriz do Brasil e vale ressaltar que
este foi um dos nomes monárquicos que passou despercebido no advento da República em
1889, quando foram trocados todos os nomes de logradouros que representavam a Família
Imperial.
_____________________________________________________________________________
A seguir mais algumas informações sobre os Quarteirões de Petrópolis e suas localizações:
Em primeiro lugar, o Renânia Inferior.
De modo geral, ele começa na parte baixa da bacia do Rio Quitandinha, na Rua
Washington Luiz n. 85 e Rua Professor Pinto Ferreira n. 180, onde se deixa a Vila
Imperial nos ns. 71 e 160, respectivamente, e vai até a Rua Coronel Veiga, pouco
depois das Duas Pontes, n. 29, aproximadamente, ponto de encontro com o Renânia
Central. Deste eixo constituído pelo Quitandinha têm-se as encostas e outros acidentes
geográficos das margens esquerda e direita do rio. A partir da margem esquerda,
depois da já citada Rua Professor Pinto Ferreira, existe a elevação (continuação do
Morro do Cruzeiro) que vai passar pela encosta que propiciou a construção de outras
importantes vias de limite com a Vila Imperial. Trata-se, aqui perto, da Rua Monsenhor
Bacelar n. 31 e da Rua do Encanto, situando-se entre elas o prédio da Universidade
Católica de Petrópolis. Do lado da Vila Imperial está a Rua Barão de Amazonas. Em
seguimento, a linha na parte elevada do terreno vai até um ponto da encosta das Ruas
Sete de Abril e Frei Rogério, que pertencem ao Quarteirão Nassau. A partir da margem
direita, ao lado da mencionada Rua Washington Luiz a linha de limite sobe a encosta e
vai encontrar a Rua 24 de Maio n. 258, aproximadamente, esquina com a Rua Antonio
Soares Pinto. Esta é cortada pelo limite em alguns pontos. Para baixo da 24 de Maio e
da Antonio Soares de Pinto estão as Vilas Imperial e Teresa. O Renânia Inferior
continua por cima do morro e vai a um ponto de encontro com a Vila Teresa e o
Quarteirão Castelânea ao descer para a Rua Conde Afonso Celso, ao lado da Rua Cel.
Albino Siqueira.
Vamos agora observar a linha que se estende para a esquerda e para a direita do falado
limite na Rua Coronel Veiga.
Para a esquerda a fronteira passa pela uma vez dita Praça Dr. Seabra (acesso ao prédio
Stefan Zweig) e pela Rua Gonçalves Dias n. 50, deste número para cima sendo área do
Quarteirão Renânia Central e depois da Presidência. Após assim atravessar a
Gonçalves Dias, a linha corta por diversas vezes a Rua Paulo Lobo de Morais,
confrontando ora com o Renânia Central, ora com o Presidência. Está-se, então, na
parte alta do Renânia Inferior. A Rua Visconde de Itaboraí n. 484, em frente à esquina
com a Rua Paulo Lobo de Morais, e a Rua 29 de Junho n. 57 separam-no do Quarteirão
Presidência. Mais adiante é em alguns pontos da Rua Nossa Senhora Aparecida e da
Rua Coriolano da Silva Bastos e no n. 355 da Rua Thomaz Cameron que existem os
limites com os Quarteirões Nassau e Ingelheim. Daí, uma linha a meia-encosta das
Ruas Frei Rogério e Sete de Abril separa Nassau e Renânia Inferior, modo pelo qual se
fecha a traçado até aqui percorrido. Para a direita do Rio Quitandinha, saindo da Rua
Coronel Veiga, a linha de divisão do Renânia Inferior corta as Ruas Demerval de
Miranda e Napoleão Esteves, em alguns trechos e atravessa a Saldanha Marinho nos
ns. 240 e 265 (275), deixando da outra parte o Quarteirão Castelânea. Daí a marca
divisória sobe e vai cruzar a Rua 24 de Maio no seu topo, próximo aos ns. 719, 728,
onde a via passa a se denominar 1º de Maio, já em solo do Castelânea. Seguindo pela
parte alta, a linha vai formar uma inclinação até encontrar o dito ponto de reunião da
Vila Teresa e do Castelânea, na Rua Conde Afonso Celso. É importante ressaltar que
os prazos do Renânia Inferior estão individualizados na numeração da série 1400 e que
nesta Renânia se acham a Universidade Católica de Petrópolis, a Casa de Santos
Dumont, o Asilo da Terra Santa (em terras que foram de Koeler e onde deu ele o último
suspiro), a Casa da Providência, o Trono de Fátima, o Palácio Itaboraí, a antiga Fábrica
São Pedro de Alcântara, a Loja da Maçonaria, a casa onde morreram Stefan Zweig e
esposa. As instituições em atividade bem poderiam incluir nos seus endereços a
menção ao Quarteirão Renânia Inferior, assim não só dando difusão à originalidade de
Petrópolis, como contribuindo enormemente para o revigoramento do uso da
nomenclatura urbana correta.
O Palatinato Inferior.
O Quarteirão acompanha o Rio Palatino. Na parte mais baixa desta bacia, ele está na
margem esquerda, na Rua do Imperador, em frente à Travessa Prudente Aguiar, que
lhe pertence. Dali segue pelo lado impar da Rua do Imperador em direção às Praça da
Inconfidência e Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que estão em seu território já na
margem direita do Palatino. Em linha quebrada de limite com a Vila Imperial, afasta-se
da Rua do Imperador pela dita Travessa Prudente Aguiar, corta a Rua Paulo Barbosa,
sendo seu o prédio de n. 276 e da Vila Imperial o de n. 272, e segue pelas encostas ao
longo das Ruas Souza Franco e Visconde de Bom Retiro. Passa por esta na altura dos
ns. 315, 334, para cima ficando a Vila Teresa, e ganha a Rua Teresa no n. 51, lado impar
que vai ser seu até o n. 651, pertencendo o lado par à Vila Teresa. Do dito n. 651 da Rua
Teresa desce para as Ruas Arnaldo de Azevedo e Dr. Sá Earp, onde confronta com a
Vila Teresa. O lado impar da Rua Dr. Sá Earp é todo do quarteirão, ao passo que é dele
o lado par até a divisa entre os ns. 592 e 600, local de fronteira com a Vila Teresa. Da
esquina da Rua Dr. Sá Earp com a Rua Gal. Marciano Magalhães até o n. 251-251A
desta têm-se terras do Palatinato Inferior e daí para cima do Palatinato Superior. Pelo
alto das encostas, a linha divisória com este último engloba as Ruas Adão Braun, Anita
Garibaldi, Bartolomeu Sodré e desce para a Rua Santos Dumont, cortando-a nos ns.
616-617 e 234-239, perdendo o trecho de intervalo entre estes números para o
Quarteirão Suíço. Prosseguindo em sua descida e sempre confrontando com o Suíço,
atravessa a Rua Buenos Aires nos ns.88 e 91 e o início da Casemiro de Abreu, junto à
Benjamin Constant. Desta atinge o n. 187 da Rua Silva Jardim, que a partir dali é da Vila
Imperial. Da Silva Jardim a linha divisória retorna à Floriano Peixoto, assim se
completando o fechamento do quarteirão. A numeração dos prazos do Palatinato
Inferior está na série 2200. No território dele estão a Estação Rodoviária, a Praça da
Inconfidência, a Igreja do Rosário, o Posto de Saúde, a Universidade Católica de
Petrópolis, o histórico imóvel do antigo colégio Paixão (espaço previsto por Koeler
para ser a Praça de Meinz), a usina das Águas do Imperador para tratamento de esgoto,
várias lojas da Rua Teresa, o Clube Dona Isabel, a Sub-Estação da CERJ a antiga
Fábrica de Pregos. Repete-se a mesma idéia de utilização do nome do quarteirão nos
endereços.
O QUARTEIRÃO MOSELA ATRAVÉS DOS TEMPOS
Paulo Roberto Martins de Oliveira
Do Quarteirão Mosela e o povo colonizador, viveram épocas de grande atividades. A
maioria dos colonos germânicos que habitavam o quarteirão, possuíam grandes
conhecimentos profissionais: Eram carpinteiros, carvoeiros, ferreiros, pedreiros, e
outros hábeis artífices que sempre encontraram muito o que fazer, tanto na Vila
Imperial, quanto no seu próprio terreno e arredores, onde plantavam e tinham criações,
dando serviço à sua própria família. No cultivo das hortas e dos pomares, colhiam
variedades de hortaliças e frutos. Com a criação de suínos produziam, além da carne e
outros produtos, a tão apreciada “Leber Blutwurst” (lingüiça de fígado e sangue). Das
vacas, cujo leite, abastecia a cidade, também produziam, em grande escala, o queijo
branco (conhecido como queijo de minas).
O Mosela era e ainda é um dos quarteirões mais participativo quanto à recreação dos
seus moradores. Lá algumas sociedades recreativas, foram fundadas. Em 1895,
fundaram o Harmonie Moselthal e mais tarde o denominaram de Sociedade Recreativa
Harmonia Brasileira. Instalou-se à Rua Mosela n.º 713, num terreno cujo prédio, foi
construído para este fim e que pertencia ao Sr. Frederico Burger. Mediante aluguel, o
Harmonie funcionou até fins do ano de 1907, cedendo lugar para a Sociedade Boa
Esperança. Porém esta não prosperou e encerrou suas atividades. Em definitivo e
adquirindo o prédio, o Harmonie voltou para o seu antigo endereço e embora com
algumas dificuldades, sobrevive até aos dias de hoje. Em 07/09/1928, um grupo de
jovens fundou o Esporte Clube Vera Cruz e em 1954 adquiriu uma grande área de
terras próximo à localidade do Moinho Preto. Em tempos difíceis, este clube esteve
fora de atividades. Porém um grupo de sócios e saudosistas, João Guilherme Burger e
Luiz Carlos Holderbaun, liderados pelo Sr. Augusto José Kreischer e com o apoio de
um dos sócios fundadores, o Sr. Pedro José Kling, fez com que o clube voltasse aos
seus tempos áureos e hoje, com um belíssimo campo de futebol e outras benfeitorias,
vem plenamente atendendo aos sócios com torneios futebolísticos e outras atrações.
Em 1929, em homenagem ao falecido Sr. Roberto Burger, foi fundada à Rua Mosela a
Sociedade Desportiva Luzeiro, cujas atividades foram encerradas a alguns anos
passados. Em 16/03/1997, por gentileza do Frei Vitalino Turcato - Presidente do
Conselho das Pastorais das Obras Sociais São Judas Tadeu, o Clube 29 de Junho
(fundado em 29 de junho de 1959), instalou-se numa das salas, localizada sob o piso da
Igreja de São Judas Tadeu. Do Quarteirão Mosela, temos muitas lendas e histórias para
serem contadas. Dotados de muitas lembranças dos velhos tempos, os descendentes
dos colonos e outros antigos moradores do quarteirão estão sempre dispostos a nos
oferecer depoimentos preciosos sobre a vida, hábitos e costumes do povo moselense.
Entre tantos depoimentos, temos o da Sra. Isolda Keuper Klippel (viúva do saudoso Sr.
Augusto Klippel). Ela conta:
- "A casa de n.º 1659 da Rua Mosela onde mora com sua filha Eliane e que foi
construída pelo seu avô Carlos Keuper, no terreno comprado dos descendentes do
colono Johann George Tannein".
"Aonde hoje é a Rua São Judas Tadeu, descia um riacho estreito e nele as pessoas
que vinham da Fazenda Inglesa, davam água aos cavalos. Os mais pobres que
geralmente vinham descalços, aproveitavam as águas do pequeno riacho para lavarem
os pés".
"Os Maiworm que vinham do Quarteirão Westfália, passavam pela atual Rua Bataillard e
desciam a Rua Mosela com seus bodes velhos e carrocinhas transportando leite para o
centro da cidade. Assim faziam os Licht e outros de outras famílias que também
exploravam os negócios de leite, manteiga e queijos".
"Do moinho do Sr. Felipe Kling, que ficava situado na Rua Mosela em frente ao início da
atual Vila Valentin Monken, quando criança. Dona Isolda ia lá para comprar fubá grosso
para a comida dos porcos e fubá fino para fazer broa. Lembra-se também que o Rio
Paulo Barbosa passava por traz da casa e suas águas moviam as grandes pás do
moinho".
"Os Gehren, foram os pioneiros do transporte coletivo no Quarteirão Mosela e lembra-se
que em 1926 a passagem custava apenas duzentos réis".
Das terras com as casas e benfeitorias dos colonos germânicos, são pouquíssimos os
vestígios. Até o Rio Paulo Barbosa (o principal do quarteirão), em alguns trechos, sofreu
modificações do seu leito original. O Rio Araújo Porto Alegre que passava pelas terras
dos colonos Franz Blatt, Philipp Peter Molter, Johann Morsch e Peter Kronenberger, a
alguns anos passados foi canalizado e desapareceu por completo. Pela planta de Koeler,
a Praça Trier, foi projetada entre as terras dos colonos Stefan Gehren e Christian
Keuper. Porém a uns quatro anos passado a Prefeitura Municipal de Petrópolis a
inaugurou em outro local e a Praça Wiesbaden que ficaria localizada no início da Rua
Mosela, ficou apenas na planta de Koeler. Ao longo destes 153 anos, desde a fundação
da Imperial Colônia Germânica, o Quarteirão Mosela passou por muitas transformações
e alterações ambientais. Primeiro pelo assentamento dos colonos nos seus prazos de
terras e segundo, pelo o término da maioria das obras públicas e civis na Vila Imperial e
arredores. Alguns colonos deixaram Petrópolis e foram para outros locais. A maioria
ficou e teve que se adaptar à situações difíceis que ora se apresentava. Porém, com
criatividade e determinação, conseguiram suplantar as dificuldades. Apenas houve
algumas alterações em termos de profissões, pois muitos colonos, para conseguirem
meios para a subsistência da família, passaram a dedicar-se ao ramo da carvoaria,
embora já existissem profissionais nesta área, como pessoas da família Noel, que eram
também colonos do Quarteirão Mosela e habitavam o prazo de terras n.º 847 (hoje
números 455 a 557 da Rua Mosela).
Quanto aos emergentes carvoeiros, primeiramente, transformaram as madeiras dos seus
terrenos em carvão vegetal e em seguida deram início a um grande desmatamento,
atingindo até as matas mais distantes do quarteirão. Devido às subdivisões e
desmembramentos da maioria dos prazos de terras, em breve espaço de tempo, estes
prazos transformaram-se em loteamentos e abriram-se muitas ruas, vilas e servidões.
Muitos destes logradouros foram batizados com nomes que lembram a Colônia, os
colonizadores ou seus descendentes.
No final do século XIX até meados deste, muitos moradores da Cidade do Rio de Janeiro,
fugindo do excessivo calor do verão carioca (os veranistas), vinham para Petrópolis e
adquiriam terras o mais próximo possível do centro da cidade. Porém, os de menos
condições financeiras, chegavam até às principais ruas dos quarteirões e assim foi no
Mosela. De posse dos seus lotes, derrubavam tudo para as novas construções. O
resultado foi que pouco restou para lembrarmos do passado. Por exemplo: da casa do
colono Philipp Peter Molter, ainda existe o alicerce de pedras. Porém, atualmente
sustenta uma construção mais recente. Embora o quarteirão tenha-se adaptado à vida
moderna e com tanto progresso, ainda temos a oportunidade de vermos algumas
construções do final do século passado. Ou seja, alguns chalés com os seus
tradicionais telhados de zinco.
Atualmente, e através de raras fotografias, ainda podemos tomar conhecimento de
algumas primitivas construções dos colonos. Como exemplo, teremos a seguir dados
relativos à casa do colono Johann Burger, com conhecimentos desde a chegada deste
pioneiro à Imperial Colônia até informações genealógicas desta família e assim
poderemos identificar a atual geração deste colono, cujo alguns descendentes ainda
usufruem de parte das terras do seu antigo prazo. Primeiramente, foram dois os colonos
da família Burger que com suas famílias chegaram na Imperial Colônia Germânica de
Petrópolis em agosto de 1845: Jacob e Johann Burger. A princípio, ficaram albergados
num dos barracões coletivos da Colônia, aguardando o processamento de demarcação e
distribuição dos seus prazos de terras. O colono Jacob Burger, sua esposa Marie
Margareth Hoefner e seus filhos Johann Jacob e Catharine Burger foram para o
Quarteirão Renania Central e futuramente, merecerão um capítulo à parte desta matéria.
O colono Johann Burger, sua esposa Susane Ternes e seus filhos Henrique, Catharine,
Philippine e Friedrich Burger foram para o prazo n.º 832 com 5.875 braças quadradas de
terras, com testada para o Rio Araújo Porto Alegre no Quarteirão Mosela. De posse do
prazo, escolheram o melhor local e construíram a casa com frente para um caminho
(hoje Rua Frederico Kronenberger) que também era um dos acessos para a casa do
colono Peter Kronenberger. O lado esquerdo da casa ficava posicionado em relação ao
Rio Paulo Barbosa e o caminho colonial, que mais tarde denominou-se Rua Mosela, e a
parte dos fundos, dava para o prazo de terras do colono Johann George Tannein.
Os colonos quando recebiam os seus prazos de terras, imediatamente escolhiam o
local da casa, iniciando pela limpeza do terreno e separando tudo o que era
aproveitável para a sua construção: pedras, madeiras e outros materiais. Cada um
arranjou-se como pode e construiu provisoriamente o suficiente para abrigar a sua
família.
Vale ressaltar que as habitações receberam a influência germânica, própria de suas
origens, como a distribuição dos cômodos, estábulos, fornos externos e as cozinhas
com os fogões de lenha. Algumas das primitivas casas resistiram até por volta dos
anos 50 do século passado. A casa do colono Johann Burger é um exemplo: durou
aproximadamente 101/102 anos. Ela foi demolida entre os anos de 1945 a 1948. Dos
colonos germânicos que foram para o Quarteirão Mosela, alguns descendentes ainda
permanecem nos prazos de terras dos seus ancestrais e como exemplo temos a família
Burger, cujos dados genealógicos seguem abaixo. O Colono Johann Burger casou na
Alemanha com Susane Ternes e tiveram 5 filhos: Henrique, Catharine, Philippine,
Friedrich e Elisabeth Burger. Sendo que, os quatro primeiros, nasceram na Alemanha e
a última em Petrópolis.
Com o decorrer dos anos, o prazo de terras do colono Johann Burger sofreu várias
subdivisões e transferências: algumas por herança e outras por vendas. Sendo
algumas para a própria família e outras para terceiros.
Atualmente encontram-se alguns herdeiros, apenas por parte da filha caçula do colono,
Elisabeth Burger, casada com Johann Philipp Kling e que foram pais de 11 filhos. Porém
apenas os descendentes dos 5º e 6º filhos deste casal permanecem em duas
subdivisões do prazo original dos Burger. O 5º filho, Felipe Leopoldo Kling, casou em 4ª
núpcias com Catharina Lichtenberg e a 6ª filha foi Maria Kling que casou com João
Einsfeld. Do casal Felipe Leopoldo Kling e Catharina Lichtenberg nasceram duas filhas:
Helena Magda e Norma Elisa Kling. Esta última reside numa das subdivisões do prazo n.º
832, na casa de n.º 1629 da Rua Mosela.
Maria Kling (6ª filha do casal Elisabeth e Johann) se casou com Johann Einsfeld e eles
tiveram 4 filhos: Dorothea Felipine Einsfeld (casada com Luiz Karl Filho), Berta Elise
Einsfeld (casada com Wilhelm Lorenz Trockenbroch), Elise Clara Einsfeld (casada com
Philipp Friedrich Ludwig Walther) e Felipe João Einsfeld (casado com Nair Francisca
Hammes). Porém parte da família que ficou com uma subdivisão do prazo n.º 832, foi a
dos descendentes do casal Dorothea Filippine Einsfeld e Luiz Karl Filho, representados
pelos seus filhos, netos e bisnetos. Portanto lá estão os que compõe a 7ª geração do
colono Johann Burger, residindo na casa de n.º 70 da Rua Frederico Kronenberger. Vale
ressaltar que o descendente mais idoso da família Burger, embora não more mais no
Quarteirão Mosela, merece também a nossa atenção. Trata-se de um cidadão bem
relacionado nos meios sociais de Petrópolis. É o Sr. Herculano Burger, nascido em
26/09/1908, bisneto do colono Johann Burger e Susane Ternes.
O Sr. Herculano desde jovem dedica-se profissionalmente às flores e destaca-se como
um grande colaborador das causas nobres de Petrópolis. Com a atenção sempre voltada
ao esporte local, foi um dos fundadores da LPD (Liga Petropolitana dos Desportos) e
muito contribuiu para o 1º título de campeão do futebol petropolitano. Já foi lojista do
ano e é conselheiro nato e efetivo do Petropolitano Futebol Clube. Sempre ligado à
nossa sociedade, já recebeu muitas homenagens e condecorações. Hoje aos 89 anos,
com duas filhas, duas netas e um casal de bisnetos, continua dedicando-se à sua flora
“A Orchidea” (fundada em 1938). Com suas flores, perfuma e embeleza a Imperial Cidade
de Petrópolis.
A seguir, algumas tradições que ainda são conservadas pelos moselenses:
Algumas famílias ainda mantém os fornos externos e os fogões a lenha em suas
cozinhas, produzindo pães, cucas e biscoitos para o próprio consumo.
- Ainda encontramos algumas famílias que continuam cultivando as suas pequenas
hortas, pomares e algum tipo de criação. Como exemplo temos uma das filhas do Sr.
Roberto Carlos Kling que, com pequena criação de suínos, produz a lingüiça de fígado
e sangue. Existe no quarteirão ainda algumas rezadeiras e benzedeiras que praticam
rezas, crenças e simpatias. Quanto aos muitos grupos de danças folclóricas que
existem atualmente na cidade, posso afirmar que muitos dos seus dançarinos residem
no Mosela. Quanto à língua alemã, são poucos os que ainda falam ou dominam o
idioma dos seus ancestrais. A montagem dos presépios de Natal ainda é praticada por
inúmeras famílias. Porém merece destaque o presépio que a mais de 50 anos o Sr.
João Carlos Burger vem montando em sua casa, ocupando todo o espaço da sala,
varanda e com alguns detalhes no jardim. Como em todo lugar, acontece lendas, fatos
e curiosidades. O Quarteirão Mosela já foi protagonista de muitas histórias da Colônia.
Em notas extraídas do Jornal “O Paraíba” (jornal que circulou na Colônia a partir do
ano de 1857), temos alguns dados interessantes que aconteceram nos quarteirões e
principalmente no Mosela entre o povo africano e o alemão. Os negros que habitavam
o Quilombo da Fazenda Inglesa, volta e meia, visitavam ilicitamente e geralmente à
noite, as casas dos colonos para saciarem a fome e também para levar os apreciáveis
produtos dos alemães: lingüiças, carnes suínas e outras iguarias da cozinha
germânica. O mais importante é que nunca achei nenhum registro de hostilidades entre
eles.
Houve até casos em que alguns colonos tenham dado cobertura para os que fugiam
dos cativeiros. Primeiro porque os colonos germânicos não adotavam o trabalho
escravo e segundo porque ficavam penalizados com a situação dos africanos. Numa
publicação do Jornal “O Paraíba” de domingo de 14/02/1858, constava que o colono
Jacob Weitzel conservava em sua casa um negro fugido que outrora tinha dado um tiro
de pistola num oficial de justiça. Para o final desta matéria, reservo uma saudação
especial e rendo homenagens ao Major Júlio Frederico Koeler (1º Diretor da Imperial
Colônia) e a todos os pioneiros colonos germânicos, os quais grande parte do povo
petropolitano descende. Eu, como um dos descendentes, sinto-me honrado e
agradecido de escrever sobre o povo colonizador dos “Quarteirões de Petrópolis” e
estar contribuindo para o resgate da nossa história.
Agradecimentos:
- Aos descendentes dos colonos germânicos e outros antigos moradores do
Quarteirão Mosela, por várias informações prestadas.
Fonte pesquisada:
Site do Instituto Histórico de Petrópolis