“Eis que estou à porta, bato. Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”. Ap.3:20

Sabemos que a principal missão da igreja é atender ao mandado de Jesus antes de subir aos céus: Ide e fazei discípulos de todas as nações (“...) ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ensinado”. (Mt. 28; 19,20), mas como fazer isso numa igreja de origem germânica? Não é do perfil dos germânicos ir para as praças e ficar pregando, procurando convencer as pessoas a seguir a Jesus. Somos mais reservados, porém fiéis às nossas convicções religiosas, as tradições da Reforma e convictos de que fora das escrituras sagradas não há caminho para a salvação que se dá por graça e por fé mediante, exclusivamente, Jesus Cristo. Meu saudoso pai dizia sempre: quem bebeu do evangelho anunciado pelos luteranos não bebe de outra fonte.

Éramos cientes disso, eu e minha esposa Elisabeth Graebner, ambos luteranos de berço. Eu de origem Eliana e ela sempre iecelbiana. Eu tinha estudado o pré seminário Concórdia em São Paulo e trabalhado como evangelista nas missões da IELB no Rio de Janeiro, São Gonçalo, Juiz de Fora e Miguel Pereira, mas sempre em núcleos iniciados entre famílias luteranas. Graças a Deus todos esses trabalhos frutificaram, foram continuados depois de minha vinda para a IECLB em Petrópolis, mas não via como fazê-lo aqui em e conversávamos isso em casa. Então Deus agiu e de uma simples atividade festiva da comunidade, seu aniversário, nos mostrou o caminho para um projeto de evangelização ao nosso estilo aqui na cidade.

Em 1982 a Comunidade havia organizado seu antigo acervo de documentos históricos em forma de Arquivo Histórico que foi aberto à visitação por ocasião dos 120 anos do templo, inaugurado em 1863, o mais antigo da cidade. Era visitado pelos membros ou por algum visitante dos cultos regulares ou festivos.

Por ocasião da semana de aniversário da comunidade em 2015 (170 anos), o presbitério resolveu manter o templo aberto à visitação publica e lá estávamos nós dois como voluntários. O resultado foi surpreendente! O povo da cidade acorreu ao templo ávido por visita-lo, já que passavam, anos a fio, por sua porta e nunca podiam adentrar, a não ser em ocasiões especiais de casamentos, batizados e concertos de nosso órgão centenário e raramente, nos cultos. E então nos ocorreu à ideia de propor ao presbitério mantermos o templo aberto aos sábados, domingos e feriados, em visitas guiadas. O presbitério aquiesceu desde que houvesse voluntários. Topamos e começamos praticamente os dois aos sábados e, posteriormente aos domingos após os cultos. Os voluntários foram surgindo e recebemos treinamento histórico (Sr. Walter Berner) e teológico (Pastor Elton Pothin). Cada um novo voluntário que atendia aos visitantes ficava encantado com a receptividade e descobria que sabia falar de Jesus, o caminho a verdade e a vida, do nosso jeito: receptivamente. Demos então o nome ao projeto de Portas Abertas, em alusão ao versículo 20 de Apocalipse 3: ”Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz...”

O Projeto “Portas abertas” surgiu, pois da grande curiosidade dos Petropolitanos e turistas, em conhecer aquele Templo que estava “quase sempre” fechado e também de um anseio nosso, membros da Igreja, em abrir não só as portas do templo, mas também os nossos braços, os nossos corações, para receber o povo de coração aberto, falar da Teologia Cristã Luterana tão bonita, àqueles que entram no templo sedentos de informações.

Lembramo-nos das palavras de Jesus em Lucas 8, vers. 16:

“Ninguém, depois de acender uma lâmpada, a cobre com um vaso ou a põe debaixo de uma cama. Pelo contrário, coloca-a sobre um velador, a fim de que os que entram veja a luz”. E é isto que estamos fazendo. Estamos abertos a todos que nos procuram, não só para conhecer tijolos e sim, o conteúdo; o que pregamos e o que ensinamos.

Nossa Igreja é o templo mais antigo da cidade e demonstra a tenacidade da fé de nossos colonizadores oriundos da região do Hunsrück, Mainz, Alemanha (ainda Liga Alemã). Erguido contra a lei constitucional que determinava uma religião oficial no país, o catolicismo, sem temor e com o apoio velado de D.Pedro II, foi um salão de reuniões simples, mas já imponente. Em 1903, após a implantação da república e do estado laico, inauguramos nossa torre com direito a sino e relógio. Em 1916 foi o momento de inaugurar o órgão vindo da Alemanha e com 978 tubos, operante até hoje. Em 1940, como parte dos preparativos para os 100 anos, ganhou vitrais encimados pela Rosa de Lutero, um Cristo que envia a sua paz a todos a partir do altar e um quebra vento com as figuras de Moisés e Paulo, numa proposital alusão à base da doutrina Luterana: anunciar sempre a lei de Deus e o evangelho de Jesus Cristo ao povo que ali se reunir.

Durante a visita guiada expomos aos visitantes a história da cidade, da Igreja, da Reforma Protestante e falamos da sua mensagem central: A salvação é por graça e por fé, mediante unicamente Jesus Cristo. As obras são resultados obrigatórios daqueles que receberam essa mensagem em seus corações e que por gratidão ao grande amor a eles demonstrado por Deus, são novas criaturas e comprovam sua fé mediante as ações cristãs no dia a dia em sociedade e nas relações com o próximo. É comum ouvirmos dos visitantes expressões como “esse é o Deus que sempre imaginei, que ama, que dá liberdade, que não cobra por bênçãos e que não faz acepção de pessoas”. A esses respondemos: Sim, essa é a verdade que está na Bíblia. “Deus recebe a todos os pecadores que receberem a Jesus Cristo como seu salvador pessoal e que obedecem a sua recomendação: vai e não peques mais”.

Através de nosso lindo patrimônio, herança de nossos fieis antepassados que resistiram à proibição de culto (no império) e às perseguições de duas guerras mundiais, podemos hoje anunciar a palavra de Deus a milhares de pessoas que nos procuram. Lançamos a semente do Evangelho em todos os corações que nos visitam. Onde elas frutificarão? Isso não é responsabilidade nossa. É obra do Espírito Santo.

Hoje este projeto tão abençoado se mantem vivo graças a um grupo de 15 voluntários, experimentado em fins de 2015, efetivado em janeiro de 2016, e que já consta do calendário de Turismo Religioso na cidade e já alcançou o numero de 5.700 visitantes entre Petropolitanos (24%), brasileiros das mais diversas regiões (64%) e estrangeiros (12%).

Como Igreja que tem história em nosso país, entendemos que outras igrejas igualmente bonitas e que atraem a curiosidade das pessoas, podem implantar projetos semelhantes e manterem suas Portas Abertas para recebê-las e aproveitar a ocasião para anunciar o Evangelho salvador de Jesus Cristo!

Temos inúmeras histórias interessantes a contar, como a de um homem alto, magro, que chegou de repente ao templo com uma máscara de Diabo que não nos permitia reconhece-lo. Após alguns segundos de medo, inspirados pelo Senhor, dissemos a ele: Seja bem vindo! Na Casa de Deus até o Diabo pode entrar e se arrepender. Desconcertado o homem se foi. São muitas outras, desde o “serial killer” até o faminto que buscou abrigo no templo. Mas o texto ficaria longo demais. Muitas são as bênçãos que recebemos. Sempre saímos dos plantões com uma alegria diferente, da certeza de termos servido ao Senhor com alegria!

“ATÉ AQUI NOS AJUDOU O SENHOR”!

Petrópolis, 04 de maio de 2018.

Elisabeth Graebner e Marcos Carneiro

Coordenadores voluntários do "Portas Abertas".

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