Eu, Canarinho!

Por: Lauro José de Avellar


Em 1942 foi criado em Petrópolis por iniciativa do Convento dos Padres Franciscanos, o primeiro coral formado só por meninos e que estudavam na Escola Gratuita São José, que ficava ao lado da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.
Para dirigir este coro, foi indicado o Frei Leto Biennias, alemão de nascimento mas que adotou Petrópolis como sua segunda pátria.
E, como eram feitas as escolhas dos meninos para a formação deste coral ? Simplesmente os alunos da escola, tinham a obrigação de assistir a missa das 8:00h aos domingos. Enquanto eram entoados os cânticos da missa, o saudoso Frei Leto ia passando de banco em banco escutando as vozes dos meninos. À medida que ele, que tinha um ouvido apurado, percebia num garoto, qualidade vocal para integrar o coral, pedia para que este o aguardasse depois da missa pois que tinha um recado para seus pais. E após a missa ele reunia os escolhidos e pedia para seus pais fossem lhe procurar na segunda-feira.
Isto aconteceu comigo, por volta de 1953. Tinha eu 9 anos de idade e vindo do Grupo Escolar Cardoso Fontes onde tinha cursado o 1º e o 2º primário.
Naquele domingo como de costume, eu estava na missa das 8:00, quando o Frei Leto bateu em meu ombro e pediu que eu o aguardasse depois da missa. Confesso que fiquei nervoso; será que fiz algo de errado? Ao término da missa ele me chamou e pediu que eu desse um recado aos meus pais: Que eles o procurassem na segunda-feira pois precisava falar com eles. Fiquei apavorado mas, mesmo assim dei o recado aos meus pais, que logo me perguntaram o que eu havia feito de errado e eu jurei que não havia feito nada.
No dia seguinte meu pai foi ao colégio conversar com o Frei Leto e quando voltou para casa estava com um enorme sorriso nos lábios e me deu os parabéns. Só então me contou o motivo da conversa: Eu havia sido escolhido para integrar o Coral dos Canarinhos de Petrópolis, fato que era motivo de grande orgulho para todas as famílias que tinham seus filhos escolhidos.
Lá no coral, havia muita disciplina. Chegávamos às 7:30 da manhã na sede dos Canarinhos que era no Prédio da Ordem Terceira de São Francisco e ali tínhamos aulas de solfejo e técnica vocal até às 9h. Parávamos uns 15 minutos para o recreio e depois fazíamos nosso dever de casa. Às 11,30h era servido o almoço e na parte da tarde íamos para o colégio.
Certa vez aconteceu um fato comigo que jamais esqueci. Frei Leto circulava entre as mesas perguntando aos meninos se gostaram da comida e se haviam comido bem. Quando chegou onde eu estava sentado, viu umas rodelas de pepino sobrando em meu prato e perguntou por que eu não as havia comido. Não gosto de pepinos, respondi. Ele então perguntou se eu já havia provado e eu respondi que não. Então ele disse: Como você pode dizer que não gosta de uma coisa se você nem provou? Tive que comer aqueles pepinos e passei a gostar.
Este era o Frei Leto. Um ser abençoado por Deus e de quem tenho muitas saudades.