Histórias da História de Petrópolis por D. Clara

Por Clara Stumpf Pitzer


Há alguns anos atrás, ainda se ouvia nos Quarteirões o mugir das vacas, o ganir dos porcos, o cacarejar das galinhas, o canto dos galos, as carroças puxadas por animais com quizos no pescoço, fazendo barulhinho.
Atualmente não se ouve mais esses sons, da vaca avisando que já era hora de tirar o leitinho fresco, da galinha avisando que já pora seus ovos. Tudo mudou: O leite que vinha fresquinho das tetas das vacas, agora vem ensacado ou em caixinhas. A galinha que era abatida em casa, já vem fatiada e empacotada. Até o perú que só morria de véspera, agora pode ser encontrado congelado em qualquer época.
Não existem mais carroças. Tudo foi substituído por carros e ônibus barulhentos, que poluem o ar. Isso sem falar nos carros de propaganda que enchem nossos ouvidos e nossa paciência. Só o que não mudou é a cachorrada latindo e perturbando o nosso sossego.
Parte I
Vamos lembrar como era a vida dos nossos antepassados que diariamente enfrentavam problemas que surgiam em seus caminhos.
No início do século XX os descendentes dos colonizadores enfrentavam verdadeiras maratonas para realizar coisas que hoje achamos comuns, como por exemplo ir á Igreja. Naqueles dias não havia Igrejas perto de casa. Tanto a católica quanto a Luterana ficavam longe dos bairros e tinha-se que ir á pé, pois não havia transporte coletivo.
As casas eram simples, sem conforto. O fogão era à lenha, a luz de lampião à querosene, os banhos eram de bacias, as roupas eram passados a ferro à carvão. Não havia água encanada nas casas e as nascentes ficavam distantes. A água tinha que ser carregada em baldes e as roupas eram lavadas em tinas feitas com barril cortados ao meio. Algumas famílias traziam a água das nascentes para mais perto de casa através de embaúbas ou bambús.
Durante o dia podia-se deixar as casas abertas quando se saía de casa, tomando apenas o cuidado de encostar as portas, para que as galinhas não entrassem. Ao voltar para casa, tudo continuava no lugar. Se não havia o conforto de hoje, as pessoas eram mais tranquilas e felizes. Não havia tóxico, nem tantas maldades e oss filhos respeitavam seus pais.
Muitas vezes as famílias saíam á noite levando as crianças para visitar os parentes. Carregavam uma lanterna com vela. Isto quando não tinha luar. E iam despreocupadas pois não existia o perigo de toparem com assaltantes. O único perigo era o de darem uma topada nas pedras ou em algum sapo que porventura atravessasse seu caminho.
Parte II
Naquele tempo, as mulheres usavam saias longas, anáguas e um “corpinho” que fazia a vez do soutien, blusas de mangas compridas e golas altas, cabelos compridos e sempre presos em tranças, agasalhos de flanelinha, sapatos fechados ou tamanquinhos.
Os meninos usavam calças até as canelas e botinhas, porém quando iam passear, usavam terninhos. Em casa, todos andavam descalços. Para trabalhar, os homens usavam calças de brim, ceroulas, camisas de manga comprida e tamancos. Para passear usavam ternos, coletes, camisas de manga comprida, gravata e chapéu de feltro.
Não havia roupas prontas como atualmente. As donas de casa que sabiam costurar um pouco faziam as roupas da família. Mas havia costureiras nos Quarteirões que faziam as roupas mais complicadas.
As máquinas de costura eram colocadas sobre a mesa. Não tinham motor pois não havia energia elétrica. Inicialmente eram movidas por uma manivela que era tocada com a mão direita e com a esquerda manipulavam a costura. Na década de 1920 chegaram as primeiras máquinas SINGER com pedais, mesas e gavetas. Mas nem tods as famílias podiam ter uma pois eram caras. Os ternos dos homens eram feitos por alfaiates e eram muito usados para ir à Igreja, acompanhar enterros, casamentos e nas eleições. Naquele tempo só os homens votavam.
Nos Quarteirões não havia estranhos. Todos eram parentes ou conhecidos e sempre se visitavam. Em caso de doença, a presença era certa. Também os doentes eram tratados em casa e nos casos mais graves os médicos visitavam os doentes em suas casas.
Os falecidos eram velados em casa elevados á pé em pesadas urnas, carregadas pelos amigos e familiares. Uma grande multidão seguia o cortejo. Eram caminhadas que levavam uma ou duas horas e os homens iam se revezando para carregar a urna. Mais tarde apareceu o carro fúnebre que conduzia o caixão.
Naquela época também não havia vacinas e muitas pessoas, principalmente crianças contraíam doenças como o sarampo e a coqueluche e muitos morriam em consequência dessas doenças.
Parte III
Naqueles tempos também não havia padarias e todos faziam seus pães em casa. Era costume quando alguma família ficava sem pão, pedir “emprestado” ao vizinho mais próximo, devolvendo logo que fosse feita nova fornada em sua casa. Também não existiam automóveis e desta forma não havia acidentes. Nos bairros só circulavam carroças que serviam de meio de transporte de pessoas e de mercadorias. Na cidade já existiam alguns carros, charretes e o tílburis que só tinham dois assentos: Um para o condutor e outro para o passageiro. Também havia os bondes que andavam sobre trilhos. Acidentes naquele tempo, só coice de cavalo. A palavra “sequestro” era desconhecida. As crianças andavam quilômetros a pé até a escola e seus pais ficavam despreocupados. Hoje são sequestradas nas portas das escola e em cada esquina podem encontrar o perigo.
Um problema já naquele tempo eram as enchentes. As ruas eram um pouco acima do nível dos rios e sem calçamento. Com as fortes chuvas de verão, muitos bairros ficavam inundados e casas eram atingidas. As pequenas pontes de madeira eram arrancadas elevadas até a ponte do vizinho e por vezes ambas resolviam dar uma “voltinha’ rio abaixo, levadas pela enxurrada.
Naquele tempo também só se conhecia duas religiões trazidas pelos colonos alemães: a Católica e a Luterana, que eram muito respeitadas. As pessoas eram mais tementes a Deus, guardavam mais os domingos e a semana santa. As famílias eram mais unidas e felizes. De tudo isso ficou uma imensa saudade e uma enorme descendência.
Pedimos a Deus que ele proteja nossas crianças e jovens que são o nosso futuro.
Parte IV
A maior parte dos alimentos que consumiam eram plantados e colhidos nas próprias terras; batata doce, batata inglesa, aipim, cenouras, beterrabas e hortaliças. Também o repolho do qual faziam chucrute. Carne de porco, linguiça, queijo de porco, manteiga, leite coalhado. Tudo das suas próprias criações. Ainda as cucas, os biscoitos e pães, tudo era feito em casa. Nos quintais havia muitos pés de frutas que eram colhidas e transformadas em doces, compotas e geleias, tais como pêssegos, ameixas, goiabas, etc.
Finalmente surgiram na entrada do Quarteirão Darmstadt, dois armazéns que eram dos senhores Pedro Winter e Carlos Loos. As famílias já compravam arroz, feijão, farinha, carne seca e o cardápio ficou mais variado e brasileiro. Os fregueses faziam suas listas de compras num caderno que era entregue no armazém e recebiam as compras em casa acompanhadas da caderneta com a anotação das compras cujo acerto era feito sempre no final do mês.
Do Jornal Bauernzeitung