Entrevista com o Sr. Pedro Kling


Pedro Kling nasceu em Petrópolis no dia 3 de outubro de 1910. Seu bisavô George Magnus Kling, nascido em Trier na Alemanha no dia 25/11/1802, casou-se ainda na Alemanha em 1826 com Marie Elisabeth Kirst e chegou a Petrópolis em junho de 1845 com sua esposa e 7 filhos: Anne Elisabeth, Maria Margareth, Johan Karl, Marie Elisabeth, Johan Phillip, Wilhelm e Dorothea. Aqui chegando, recebeu o prazo de terras nº 809 no Quarteirão Mosela.
Logo no primeiro ano aqui em Petrópolis, o Sr. George, durante a construção de um paiol, precisava derrubar algumas árvores em suas terras para obtenção de madeira. As paredes das casas eram feitas com lama e pedras e como não havia dinheiro para comprar telhas pois estas na época eram importadas e muito caras, os colonos cobriam suas casas com folhas de coqueiro. E foi cortando um pé de coqueiro que aconteceu a tragédia. Após cortar o tronco, as folhas ficaram enroscadas num cipó. Meu avô deu a volta para cortar o cipó para que liberasse o tronco e este girou e caiu sobre ele, que teve morte instantânea. Fazia apenas um ano que estava no Brasil. Na época sua filha mais velha Anne Elisabeth estava com 19 anos e Dorothea a mais nova, com 3. O filho homem mais velho Johan Karl estava com 15 anos e já trabalhava como ajudante de pedreiro em obras públicas,. Trabalhou também na construção da Igreja Luterana e da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Casou-se com Susane Dupré.
Seu irmão Johan Phillip, (avô do nosso entrevistado), casou-se com Elisabeth Burger e foram pais de Carlos Kling Sobrinho, nascido em 11/09/1869 (pai do nosso entrevistado). Casou-se com Catharina Gheren em 25/05/1901. Foi empreiteiro da Prefeitua, vereador, comissário de polícia e fundador do Clube Harmonia.
Na época dessa entrevista em 2008, o Sr. Pedro aos 98 anos de idade, estava perfeitamente lúcido e ainda realizava pequenos trabalhos. É ele quem narra particularidades de sua história:
“Quando completei 14 anos de idade, falei para meu pai que não queria mais estudar pois não tinha vocação. Meu pai disse; tudo bem, desde que você se dedique a algum ofício, pois não vou admitir filho homem desocupado em casa. Então fui trabalhar como voluntário para aprender a profissão na Carpintaria Clemente Bauer na Praça Oswaldo Cruz durante um ano como servente de pedreiro. Trabalhei também na Carpintaria de João Braun como meio oficial de carpinteiro em esquadrias. Depois de mais dois anos fui trabalhar na carpintaria de Paulo Faulhaber. Em seguida ingressei no serviço militar, isso em 1931 onde trabalhei na carpintaria do Batalhão. Quando saí passei a trabalhar por conta própria e me aposentei aos 50 anos de idade.
Na época existiam poucas casas no Mosela. As ruas eram de macadame e a 1ª casa com luz elétrica era de meu pai.
E os namoros naquela época, era tudo tão diferente. Quando um rapaz se interessava por uma moça, ia procurar os pais dela, pedir autorização para namorá-la. Com a devida autorização, o namoro só acontecia em casa da moça, na presença de seus pais ou de irmãos mais velhos. Eu também fui um pai rigoroso. Certa vez fui à praia com minha filha e mais algumas famílias de Petrópolis, quando um dos filhos de outra família veio até mim dizendo que estava interessado em minha filha e queria autorização para namora-la. Eu respondi: Aqui não é lugar para isso. Quando chegarmos em casa você me procura e então vamos ter uma conversa séria, meu rapaz. E assim aconteceu.
Quando eu era ainda um rapaz, conheci uma moça de nome Frida, que trabalhava numa padaria. Eu estava interessado nela e numa quarta-feira, dia em que ela saía mais cedo, fui esperá-la na porta. O dono da padaria me mandou embora e ameaçou me expulsar se não saísse dalí. Tentei argumentar mas foi em vão. Ele me convenceu com as seguintes palavras: Quem manda aqui sou eu! Mando aqui, mando em casa, mando em qualquer lugar. E eu tive que ir embora.
Lembro-me com detalhes da minha infância. Em casa só falávamos alemão. Tínhamos dois empregados. Um deles era um negro alto, que chamávamos de “Deutscher Michel” Ambos aprenderam falar alemão também. Já adulto certo dia uma moça me parou e perguntou: O Sr. Lembra de mim? Eu olhei e respondi que não. Então ela disse; Conhece sim, eu sou a filha do “Deutscher Michel”
Nossos pais eram muito rigorosos. À mesa, durante as refeições era proibido conversar. Todos sentavam-se em silêncio, nossa mãe arrumava os pratos mas só começávamos a comer quando nosso pai havia se servido. Do mesmo modo, ninguém saía da mesa antes de todos terminarem.
Certa vez meu irmão chegou em casa com uma lata de banha. Nossa mãe perguntou onde havia conseguido a lata. Meu irmão disse que estava na rua, em frente a um açougue. Então a mãe mandou que ele voltasse e recolocasse a lata no mesmo lugar onde a encontrou.
E os natais? Havia sempre um pinheiro gigante com muitos espinhos que ia do chão ao teto. Cada um de nós, crianças, ganhava um prato com maçãs, nozes, passas, biscoitos e um brinquedo. Ninguém escolhia o que queria ganhar e no entanto todos ficavam felizes.
Do período da guerra não gosto de lembrar. Uma prima que era casada com outro alemão, teve sua casa invadida. Quebraram tudo. Quem falava alemão tinha que tomar muito cuidado por que existiam muitos traidores que denunciavam quem falasse alemão. Um fato triste aconteceu no Armazém da família Kitz na Rua 7 de Abril. Este foi invadido e muitos sacos de trigo, feijão e arroz foram rasgados e seu conteúdo espalhado no meio da rua, só porque os donos eram alemães.
Estudei no Colégio Terra Santa. Íamos á pé da Mosela ao Valparaíso, descalços sobre a geada no inverno. Naquele tempo nós respeitávamos nossos professores e estes batiam nos alunos quando este não se comportava. Eu tinha um colega que, para puxar o saco da professora, levava varas de bambú para ela usar. Mas, por ironia do destino era o próprio que mais apanhava com elas, tornando-se motivo de chacota dos demais alunos.
Trabalhei muito. Fiz e consertei telhados e assoalhos de escolas, igrejas. Muitos da minha família também. Os Kling, vieram para construir. Também construímos o Hotel onde hoje funciona a UCP - Universidade Católica de Petrópolis no Relógio das Flores.
As famílias eram bem mais unidas. Havia o costume de se visitarem. Íamos todos passar alguns dias na casa de parentes e estes depois vinham retribuir a visita. Era muito divertido. Até gosto de algumas coisas modernas de hoje mas, antigamente era melhor.

Entrevista realizada por Elisabeth Graebner