Maria de Lourdes Molter Branco Siixel


Ela nasceu na Av. Ipiranga 326 em 11 de junho de 1924 teve um irmão Osvaldo que faleceu ainda criança. Estudou no Kindergarten na Igreja Luterana, mas o pai por ser católico achou que ela deveria estudar em colégio católico e a colocou no São José.
O dono da Casa era João Koele e a esposa era Käthe Koele. No Natal D. Käthe mandou uma costureira de Correas fazer vestidos de bonecas e trouxe as duas filhas do marido da Alemanha, elas tinham em torno de 8 a 9 anos, vestiu-as com as roupas e as embalou em caixas, colocando-as sob a árvore. Foi um baita susto para o marido. Hoje as pessoas se preocupam em beber, fazer churrasco. Mas eu não entendo o Natal dessa forma. Da. Maria sempre teve muita curiosidade e interesse em aprender coisas novas. Sua mãe não sabia fazer trabalhos artesanais, então quando adolescente ia passar roupa em casas de vizinhas, começou a aprender tricô, crochê, bordado, etc. Até hoje não consegue sentar e ver TV, precisa estar fazendo alguma coisa. Mostra panos de prato com técnicas de aplicação, colagens, crochê, etc. Sianinhas imitando patinhos, outra imitando flamingos.
Numa ocasião conta ela, havia um programa de TV chamado cidade contra cidade. Era no Programa Silvio Santos. Tinha três ou quatro tarefas. Alguém descobriu que eu levava jeito para fazer as coisas e fui chamada para representar Petrópolis nessa gincana. Eram cinco roupas típicas que deveriam ser feitas de papel. Eu levantava durante a noite e colocava a cabeça para funcionar. Fiz uma noiva completa em tamanho normal com sapatos, anel, colar. A renda da anágua era de papel de contornar bolo. Era Guaratinguetá contra Petrópolis. Ganhei o concurso e uma ambulância para Petrópolis.
Certa vez alguém me procurou com uma música holandesa, pediu que a ouvisse e criasse em cima dela. Seriam apresentadas coreografias por diversos grupos para cada uma; chinesa, holandesa, fui ouvindo as músicas e imaginando as roupas. No dia da apresentação fiquei emocionada ao ver todos aqueles grupos caracterizados ao lembrar que tudo aquilo passou por minhas mãos.

Antônio Pinheiro, seu filho, nos conta outra história:

Ainda morávamos em outra casa, quando certa vez comprei um jogo de lâmpadas para o Natal, na Argentina, estava doido para estreá-las. Cheguei a casa e fui direto ligá-las, mas quem disse que elas acendiam. Havia uma arvore de Natal grande, testamos lâmpada por lâmpada, ligamos e nada. Meu pai ajudou, mexeu na tomada, desligamos tudo de novo e nada. Quer saber disse meu pai, deixa tudo pra lá, amanhã a gente tenta de novo. Fui deitar, deixando a porta aberta, meu quarto em cima, quando olhei p/porta, vi um menino de short branco olhando p/mim. Sentei na cama e perguntei: O que é que você está olhando p/mim, fala, fala garoto! Meu irmão que dormia ao lado disse: Com quem você está falando, está maluco? Bebeu alguma coisa? Você não está vendo o garoto?
O garoto disse: Olha, eu tinha uma missão, era levar alguém dessa casa hoje, mas você não foi teimoso, e era você que ia. Vai acender tuas velas, vai. O perigo passou.
Desci, o garoto estava embaixo olhando p/mim dizendo: vai lá agora, acende tuas lâmpadas. Eu fui lá, liguei as lâmpadas e elas acenderam todas.


Antônio continua contando.

Havia uma mulher aqui na Mosela, (ela omitiu o nome), muito esnobe e arrogante, apesar de ser de família humilde de caseiros. As pessoas já não aguantavam mais e então, quando ela marcou seu casamento, alguém bem gaiato colocou no jornal que este seria o casamento do ano. Que a recepção seria no jardim da mansão de não sei quem, as flores viriam de não se sabe onde, que o vestido da noiva seria o mais belo de todos os tempos. No dia do casamento, na igreja do Sagrado não cabia mais ninguém para ver o casamento do ano. E para tristeza dos curiosos, e satisfação dos gaiatos, o casamento aconteceu, a noiva chorando de vergonha e os noivos sendo vaiados.


Havia dois clubes. O Harmonia e o Luzeiro. Sabe quem dançava sempre com minha vó, a quadrilha francesa puxando as quadrilhas no Luzeiro? O príncipe. Ele era par dela. Não era aquela quadrilha que conhecemos hoje, toda macacada e sim a quadrilha francesa, era lindo! Da. Lourdes Boller tocava piano. Oque havia de mais bonito eram os bailes às vésperas do dia 29 de junho, dia de São Pedro. A meia noite eram apagadas as luzes e acesa uma fogueira. Esse costume acabou porque um artifício caiu numa casa que pegou fogo. Eram músicas tocadas ao piano. Pessoal que freqüentava o harmonia dizia que quem freqüentava o luzeiro não prestava. Diziam que fulano não presta freqüenta até o Luzeiro.. O Luzeiro tinha mesas e cadeiras enquanto que no Harmonia havia aqueles bancos compridos. Na época minha mãe ia ao baile e muitas levavam crianças que dormiam debaixo dos bancos, muitas crianças. Meu tio Salvador Kling era presidente do Harmonia Ele ficava em cima de uma cadeira no centro do salão vigiando os casais, se dançassem de rosto colado ou tocassem no ombro das moças sem ter lenço na mão eram advertidos. A banda era formada pelo Sr. Ernesto Schoen no violino e Guilhermo Moreira tocava harmônica,
Então no Luzeiro compraram uma tv e a Mosela toda ia assistir.
Havia aqui uma casa de pedras, o chamado colégio de pedras. por volta de 1951onde estudava a filha de Carlos Lacerda e os donos do colégio eram primos do Presidente Castelo Branco. O uniforme de gala era de guarda-marinha, todo branco, sapatos de verniz brancos, lindo. Mas o povo da Mosela não estudava muito ali porque era caro. Tinha aula de catecismo, de piano, inglês, francês, só alunos de famílias ricas. A professora de piano Da. Regina hoje dá aulas no Santa Cecília.
Havia o carro do leite, nós deixávamos uma leiteira de alças lá embaixo na entrada da rua, ele passava e enchia as leiteiras.
Você sabe que já caiu um avião aqui na Mosela ? Na esquina da Rua Major Sérgio com Professor Monken onde é o Campo do Serrano. Lá caiu um teço-teco, morreu todo mundo, o pessoal que foi lá ver disse que o defunto estava mortinho.
Também houve aqui um amigo que faleceu e deixou 5 viúvas. Na hora do velório eu não sabia à qual delas dava os pêsames. Em cada canto havia uma viúva chorando. O dentista da mãe diz que quando um enterro é grande é gente da Mosela. Todas se conheciam. Dei os pêsames àquelas a quem mais conhecia.
Aqui já fizeram novelas, filmes e seriados..
Quer ver outra coisa que tinha aqui na Mosela e que não tem mais? Bloco de carnaval. Reunia uns 50 ia todo mundo para a matinê e depois para a Avenida. Tinha um Sr. Antenor ele tinha um caminhão com carroceria aberta, ele carregava todo mundo que ia sentado lá. A Mosela é o melhor lugar para se morar em Petrópolis.

Antônio agora fala da Padaria Guarani. O Sr. Augusto Klippel trabalhava lá, esta pertencia aos pais do Sarg. Boenning. Chegaram dois telegramas comunicando a morte de um soldado de nome Fernando e outro do Sarg. Boenning. Os telegramas foram entregues para as famílias trocadas. As duas famílias estavam muito pesarosas pela morte do filho da outra família sem saber que seu próprio filho havia morrido. O do Boenning foi p/casa do Fernando Fontes, das duchas e vice-versa. Mal sabendo que seu próprio telegrama estava na casa do outros. Quando o exército descobriu a troca e foram até a padaria entregar o telegrama certo para Da. Frida, chegaram na hora em que uma multidão se aproximava da padaria para promover um quebra-quebra pelo fato de tratar-se de propriedade de alemães.O Professor Ernani que foi também diretor do Col. Pedro II, ele teve que dar um tiro para o alto para espantar e multidão e ele disse: Vocês estão sendo injustos. Eles acabam de receber da notícia da morte do filho deles, lutando a favor do Brasil. Eles falavam: E agora, como vamos contar a eles. Da. Frida não sossegou enquanto não foi visitar o túmulo do filho na Itália, no cemitério de Pistóia. Hoje seus restos mortais estão no rio, no monumento aos heróis da 2ª guerra mundial. O Sarg. Boenning e o Fernando fontes estão lá. É muito significativo aquele monumento. Alguns soldados não tem sequer identificação. Para estes tem uma inscrição dizendo: Aqui jaz um herói da pátria, Deus sabe seu nome. Aqui na Mosela teve baile para recepcionar os heróis da guerra quando voltaram. Daqui foram muitos rapazes para a guerra.