Onde anda o espírito de Natal?

Elisabeth Graebner (2º domingo de advento) 2008


Os primeiros Natais que eu me recordo, eu devia ter uns 4 anos de idade. Morava com minha mãe na casa de uma das minhas madrinhas onde mamãe era empregada doméstica em Itoupava Central, Blumenau/SC.
Como era de tradição na casa dos alemães, todos os preparativos eram secretos, a única coisa perceptível era a euforia e a expectativa. As casas recebiam pintura nova, os canteiros de flores recebiam um capricho especial assim como o gramado, janelas, cortinas e tapetes eram lavados, tudo para o Natal. No ano anterior, ganhei um boneco destes de plástico com cabelo em relevo. Ele veio de short azul, camisa listrada azul e branca de marinheiro e um boné azul. E eu o batizei de Rui. Esta roupa foi feita pela mamãe Noel lá de casa. No 1º domingo de advento, lá estava a coroa de cipreste com suas 4 velas, já anunciando a chegada do Natal. No mês de dezembro todos os dias à tarde, mamãe trabalhava no quarto de costuras a portas fechadas, criança não podia entrar. Nas vésperas do Natal, o cheiro das cucas, dos biscoitos e das demais delícias, era irresistível. E eis que a sala ficava trancada. Era um mistério só. Nunca tinha visto como a árvore chegava lá em casa, ela era montada só dia 24 como era costume na casa dos alemães. Do lado debaixo da rua, bem em frente à nossa casa, morava minha outra madrinha. Naquele dia, quando olhei para a janela dela, vi através da cortina os galhos da árvore de Natal dela. Fui para a frente da minha casa espiar a árvore dela mas ela percebeu e fechou a janela e puxou a cortina. Mas, não havia problema. Logo seria noite e eu poderia ver a nossa árvore e tudo mais. As horas não passavam. Mas finalmente, por volta das 6 da tarde, era hora de começarmos a nos arrumar. Depois do banho, o melhor vestido. Na maioria das vezes, feito para esta ocasião. Em seguida ceávamos. Não havia o costume de esperar dar meia noite. Depois da ceia e da cozinha arrumada, era chegado o grande momento. Finalmente a porta da sala se abria e a visão era algo indescritível. A árvore gigante, com as velas acesas, um clima de festa, de amor, de emoção que não dá para descrever. Cantávamos as canções de natal que foram ensaiadas nos domingos de advento e então ouvíamos o som de um sininho se aproximando. Cada vez mais perto até parecer que o som iria entrar pela porta da sala, mas nada, o sininho parava de tocar e então alguém ia lá ver quem teria sido mas do lado de fora não havia ninguém. Mas havia algo, um o saco que continha presentes, maçãs e outras guloseimas. E eu ganhei uma boneca nova. Nova??? Sim, ela parecia nova, estava com um lindo vestido florido de saia muito rodada, com anáguas por baixo e um lindo chapéu na cabeça no mesmo tecido enfeitado por laços de fitas. Mas, olhando bem, eu conhecia aquela boneca. Ou era aquele boneco? Mamãe observava minha reação ao descobrir que dentro daquele vestido, estava o mesmo boneco do ano passado ou seja; era o Rui. Mas, olhando bem, a roupa de menina estava tão linda. Então abracei minha nova boneca e resolvi chamá-la, vejam vocês de....Anne!
Quando fiz 6 anos e estava matriculada na escola, eu tinha um enorme desejo de Natal. Meu presente mais desejado era a Pasta de material para o colégio. Naquele tempo não existiam mochilas. Quando alguém chegava em casa naquele dezembro carregando um embrulho suspeito, eu logo perguntava se era minha pasta. Certo dia meu Padrinho Tio Gustavo, chegou em casa com um embrulho fino e retangular. Eu corri até ele e pergunte aos pulos: é a minha pasta, a minha pasta??? Ele sorriu dizendo. Que, tua pasta, quem disse que voce vai ganhar pasta no natal? Eu não conseguia pensar em outra coisa. Naquela noite de Natal, aquele embrulho estava lá, debaixo da árvore. Eu não conseguia desviar os olhos dele e pensar: É a minha pasta..Quando finalmente chegou a hora de abrir os presentes e aquele embrulho foi entregue a mim, meu coração disparou. Mas, apalpando, realmente não parecia uma pasta de material de colégio. E quando abri, era uma pequena cadeira de praia de madeira, destas que dobram e no encosto havia o desenho de um cachorro basset. Igualzinho a cachorra que eu tinha. Apesar de não ter sido a pasta, amei a cadeira e de tal forma que ela existe até hoje e está guardada na casa da minha mãe, inteirinha.
Outros natais vieram. Também os tempos difíceis o que não apagava o brilho da esperança e do espírito de Natal. Eu já tinha irmãos, não morava mais com minha madrinha e podíamos ajudar na fabricação dos biscoitos. Era uma festa. Ajudávamos a cortar a grama, revigorar os canteiros das flores, lavar as janelas e as cortinas. Tapetes não havia mais e a luz era a lampião de querosene. Segundo a tradição alemã, no natal é feriado dia 25 e 26, assim como no ano novo é dia 1 e 2.
Para que pudéssemos curtir os dois feriados era necessário providenciar alimento para os cavalos, os porcos, as vacas, as galinhas por dois dias. Isto não era fácil. Cortávamos capim que era amarrado em feixes, colhíamos balaios de aipim e batata doce para os porcos que eram carregados nas costas em balaios para abastecer o rancho, e tínhamos que debulhar milho suficiente paras as galinhas, patos e marrecos ao ponto de ficarmos com calos nas mãos e a pele sair. Mas, tudo era motivo de alegria.
Apesar de já estarmos grandinhos, eu com 8 ou 9 anos, ainda era um mistério como a árvore de natal entrava lá em casa. A cerimônia era a mesma, tudo em segredo e o mesmo impacto na hora em que a porta da sala se abria. Já não havia brinquedos, mas ganhávamos roupas novas ou tecidos, e para cada um havia um prato com maçãs, chocolates e balas. Estas guloseimas vinham de São Paulo, Tia Anita, irmã de mamãe mandava uma caixa todos os anos. E enquanto nossos olhos percorriam os enfeites e as luzes da árvore da Natal, cantávamos com toda empolgação os hinos ensaiados enquanto os nossos corações pareciam querer explodir de emoção. No dia seguinte cedo tomávamos aquele café da manhã delicioso, com tantas coisas gostosas que mamãe havia feito que nem dava para comer um pedacinhos de cada cuca, bolo ou torta ou um biscoito de cada para provar. Depois íamos ao culto, mamãe ficava em casa adiantando o almoço. Quando chegávamos ajudávamos com o que faltava fazer e depois do almoço, normalmente tínhamos visitas. Eram tardes de confraternização, regadas com cafés deliciosos, mas a noite de Natal não saía das nossas lembranças. Com ou sem presentes, o brilho do Natal vinha de dentro de cada um e estas lembranças fazem parte das melhores de toda minha vida.