A Natureza: fonte de matéria-prima para o homem?

A Natureza: fonte de matéria-prima para o homem?

Eloy Fenker (*)

1. Introdução

Se você iniciou a leitura atraído pelo título e se pensa que há um exagero, é um bom começo,porque aqui se procurará demonstrar exatamente isto e as suas implicações no trato da Economia Ambiental.

Pare por um minuto a leitura para considerar a seguinte afirmativa: A natureza é a única fonte de matéria-prima para satisfação das necessidades materiais do Ser Humano. Assim sempre foi e será para sempre. Quando deixar de sê-lo, nossa espécie estará extinta.

Olhe para os objetos que estão em seu corpo: a roupa provém da flora ou fauna; o relógio, os óculos, provém dos minerais; o sapato provém dos animais e minerais. Olhe mais a seu redor: a casa ou escritório que lhe abriga; a madeira provém das florestas; os tijolos provém das minas de argila; seu fogão;seu computador; o papel que você usa; a cadeira onde senta; o alimento que o nutre e mantém sua vida; a água que você bebe. Olhe para fora: o automóvel provém dos minerais; o calçamento das ruas provém das minas; os fios condutores de energia elétrica provém de minas; a energia elétrica provém da queima dos combustíveis ou de outras fontes naturais geradoras de energia, que por sua vez utilizam matéria da natureza para transmissão. Algumas pessoas só estão vivas porque foram salvas com medicamentos extraídos da natureza.

Continue pensando: Pode-se ver algum material que não provenha da natureza? Não é a natureza a fonte única fornecedora de materiais para o Homem?

2. A Economia Ambiental

O ser humano, para viver, tem necessidades materiais que precisam ser satisfeitas. Deve-se reconhecer outras ilimitadas necessidades, não tratadas aqui.

De maneira simplista, existem tão somente dois fatores de produção de bens e serviços para satisfazer as necessidades do ser humano: a Natureza, que nos proporciona a matéria-prima e a energia; o Trabalho que aplicamos sobre eles, nas mais variadas formas, intensidade, seja ele braçal ou intelectual.

Os recursos naturais, por sua vez, podem ser subdivididos em duas espécies:
Não-renováveis – aqueles que, após esgotados não podem ser reproduzidos utilizando a tecnologia atualmente disponível. Como exemplo, os minérios. Uma vez esgotados, jamais os teremos novamente.
Renováveis – aqueles que podem ser reproduzidos ou criados a partir de material genético . Como exemplos : flora e fauna; florestas plantadas; alimentos.

Deduz-se então que o ser humano deveria, em tese, proceder dentro da seguinte linha:

I) Evitar utilizar os recursos não-renováveis, preservando-os para as gerações futuras. Admitido que o homem não vive sem os recursos naturais, evitar totalmente sua extração é impossível. Então se pode minimizar, reduzir sua utilização. Há um limite para uso destes recursos, que irão se esgotando de forma inexorável e quando superado este limite, a vida no planeta será insustentável e a espécie será extinta.

Matematicamente, nossa espécie será extinta. As teorias fortes são as mais simples, que todos entendem e concordam. Se adotarmos como pressupostos: a) que o ser humano não vive sem usar os recursos não-renováveis; b) que os recursos não-renováveis são limitados; c) que estão sendo consumidos e, portanto, o Estoque Disponível irá sempre diminuir; d) que não existem substitutos, mesmo nos produtos renováveis, então pode-se concluir que a duração da vida no planeta resume-se a uma simples equação matemática:

Estoque Disponível de Recursos
naturais não-renováveis
———————————————– = Tempo de Vida da Humanidade
Consumo Anual Total

A vida será insustentável mesmo antes de esgotar o último recurso, quando o Estoque Disponível de Recursos Naturais (EDRN) superar o Ponto Mínimo de Sobrevivência (PMS). O Consumo Anual Total (CAT) é calculado pelo número de habitantes multiplicado pelo consumo individual médio, anual.
O Estoque Disponível é assim calculado para o próximo ano:

Estoque atual – Consumo Anual Total = Estoque Disponível de RN

Como não há produção de novos recursos,o Estoque Disponível será sempre menor e atingirá o nível em que a vida humana será impossível.

A hipótese que pode prolongar o tempo de vida neste contexto?
a) reduzir o consumo e manter o Estoque Disponível em níveis suportáveis
b) concomitantemente, criar e utilizar substitutos e complementares renováveis.
Numa equação com duas variáveis, o Estoque Disponível e o Consumo Anual Total, sendo uma variável fixa ou tendendo para a extinção (no caso, o Estoque Disponível), a única forma de alterar o resultado da equação é o comportamento da outra variável, o Consumo Anual Total. Matematicamente, sendo o Consumo Anual Total produto do número de pessoas pelo consumo individual médio, dever-se-ia reduzir o consumo individual médio ou conter o crescimento populacional. O que temos visto é uma aceleração do consumo individual e um concomitante aumento da população. Com isto, acelera-se o processo de exaustão dos recursos não-renováveis de forma exponencial. Para corroborar o raciocínio, tente-se observar que, sendo a área de solo fixa e a quantidade de habitantes crescente, a cada vez teremos menos área de solo por pessoa. No Brasil de 1500, tínhamos provavelmente 1,5 milhão de habitantes, o que daria uma área de 566 hectares por habitante. Breve seremos 200 milhões de habitantes, o que dará 4,25 hectares por habitante. Quando, em 2130 atingirmos 1 bilhão de habitantes, haverá 0,85 hectare por habitante.

Se hoje estamos questionando a redução de uso de produtos não-renováveis, e a impedindo a expansão das áreas de plantio de recursos renováveis, o que será daqui a 100 anos, quando necessitaremos produção de 5(cinco) vezes dos atuais recursos não-renováveis?

II) Concentrar esforços na produção e uso de recursos renováveis.

A extinção matemática da vida no planeta poderá ser prolongada por um período diretamente proporcional à economia dos recursos não-renováveis, o qual depende da utilização de substitutos ou complementares ou seja, do incremento de uso dos recursos renováveis. O aumento da produção de recursos renováveis, por sua vez, implica em reduzir as áreas de recursos não-renováveis, aumentar a produtividade das atuais áreas e também a utilização de recursos não vinculados ao solo, como por exemplo, a energia solar, fotovoltaica, energia dos mares, eólica, ou materiais e energia de outros planetas. Mas a energia (elétrica) é somente uma pequena parcela da equação. Não resolve o problema dos alimentos e dos minérios, da água, ou a condição do ar.

Mas mesmo a produção de recursos renováveis está condicionada ao conceito de sustentabilidade. Sustentável é a situação em que o consumo é igual ou inferior à produção. Por exemplo, uma floresta é sustentável se a madeira dela extraída for inferior ao crescimento vegetativo. Admita-se que uma floresta de um hectare apresente um Estoque Disponível de 1000 toneladas; admita-se que um hectare de floresta plantada apresente um crescimento anual de 3%, ou 30 toneladas de massa,no primeiro ano, (floresta jovem, plantada, cresce basicamente porque seqüestra carbono que incorpora na massa, enquanto que floresta senil, adulta, neste específico e restrito aspecto é praticamente poluidora, ou no mínimo, neutra porque não aumenta sua massa). Se extrairmos anualmente de maneira contínua, mais do que seu crescimento de 30 toneladas, como por exemplo 6% do Estoque Disponível, a floresta exaurirá completamente em 26 anos. Mas se retirarmos anualmente somente 3% , ou 30 toneladas, esta floresta será sustentável, permanente, eterna.

O mesmo raciocínio se aplica a todos os recursos naturais renováveis: dado um estoque disponível, somente podemos extrair num período os frutos do mesmo período. Devemos colher os frutos, não a fruteira.

Ou constrangemos o consumo ou aumentamos a produção. É dever de todos, especialmente aqueles com visão de longo prazo, incentivar a expansão da produção dos recursos renováveis, como forma de preservar os não-renováveis.

3. Conclusão

Homem e natureza são um só, numa visão cósmica. O destino do Homem e da Natureza são o mesmo. Precisam viver integrados, de forma sistêmica. Ao se aperceber que parte sua está se exaurindo, ele certamente desenvolverá mecanismos de sobrevivência.

A partir disto, pode-se concluir que são totalmente estéreis maior parte das discussões em torno da temática ambiental que visam tão somente reduzir o consumo dos recursos não-renováveis (o que é um consenso, é senso comum) e não levam em conta a simultânea criação de substitutos ou complementares renováveis em igual ou maior proporção, até se obter a sustentabilidade.

Muito mais estéril a busca de culpados pelo atual estado de coisas. Há uma tendência a culpar governos e as empresas, que em última instância são os agentes, provedores e mediadores das necessidades do homem. Somos produto do nosso meio, crenças e valores.

A solução matemática inexorável para aumentar o Tempo de Vida da Humanidade passa por uma solução de sustentabilidade:

a) redução do consumo de produtos não-renováveis;
b) aumento da produção de produtos renováveis;
c) contenção do crescimento populacional.

A esperança que resta transcende o atual conhecimento e compreensão , o que levaria a uma postura mística envolvendo crenças e valores que permitiria a visão de soluções hoje não imagináveis para o destino da espécie.

* É professor aposentado (UFRGS), pós-graduado em Finanças e mestrando
em Contabilidade (Unisinos-RS).

Pesquisado por MARCOS CARNEIRO EM 06/10/2017